Zatoichi (Takeshi Kitano, 2003)
Um dos temas mais recorrentes nos filmes japoneses, assim como em outras narrativas em que o Japão é uma força dominante (desenhos animados, histórias em quadrinhos, videogames etc.), é o embate entre o novo e o velho, entre a tradição e a inovação. De uma forma geral, o tratamento dado por eles a esse tema tende a apontar para os perigos de se abraçar a novidade como solução para tudo, à medida em que se joga fora a tradição. Em uma cultura extremamente conservadora e de grande tradicionalismo e formalismo, e na qual os jovens, em sua grande parte, desviam seu olhar do tradicional em busca de devorar o novo, tal abordagem funciona como uma espécie de ponto de equilíbrio nesse dilema.
Em meio a essa questão, Zatoichi funciona quase como um ponto de ruptura nesse histórico. Se, por um lado, o filme é claramente uma referência a elementos clássicos da filmografia japonesa e, mais importante, do cinema do próprio 'Beat' Takeshi Kitano, há uma clara tentativa de abranger um universo que escapa ao tradicionalismo do cinema, uma tentativa de englobar elementos que não são do cinema de forma clássica, mas que podem se tornar cinema dependendo do seu uso. Se em seu filme anterior, o primoroso Dolls, Kitano já flertava com a expressão clássica de expressões artísticas fora do cinema (no caso, o teatro de bonecos Bunraku), nesse filme a proposta é levada muito mais à frente.
A aproximação do filme com certas tradições do cinema japonês está clara desde sua própria proposta: levar ao cinema uma adaptação de uma história de samurais. O 'filme-de-samurai', espécie de gênero-chefe do cinema japonês, que inclusive o espalhou para o resto do mundo, é uma marca registrada em que Kitano ainda não havia tocado. Mais que isso, a própria história de Zatoichi é um grande clássico da literatura japonesa do gênero, inclusive já tendo sido adaptada para a tela grande em mais de uma ocasião, gerando uma longa série de filmes que atravessou os anos 60 e 70.
Além disso, o filme traz uma grande referência ao restante da obra cinematográfica do diretor. Tudo bem, o universo retratado não é o dos yakuzas do Japão contemporâneo, mas todo o conceito de um universo violento e onde há, ao mesmo tempo, espaço para poesia através de drama e comédia, permanece intacto. Se Kitano muda o tempo e espaço com que trabalha, ainda sobram seus elementos mais básicos: a presença de uma entidade de grande poder sobre a vida dos personagens (no caso, a máfia), a violência latente, o lirismo e a comicidade das atividades mais banais. As cenas de humor do filme remetem a alguns de seus outros filmes, que por sua vez remetem a um humor 'clássico', mais puro, um humor inocente e físico, dos olhares e não dos trocadilhos inteligentes e comentários ácidos.
Claro que tudo se completa definitivamente com a sua persona na tela: o homem durão, de extremo talento para a violência e a brutalidade, mas ainda assim essencialmente bom. Chega a ser irônico que seu personagem seja chamado praticamente o filme inteiro de 'massagista', já que, apesar de ser um guerreiro e matar violentamente uma horda de inimigos, é perfeitamente possível imaginá-lo fazendo uma massagem, coisa que nunca é mostrada no filme. Como em todos os personagens de Kitano em seus filmes, essa dualidade entre a violência e a delicadeza é explorada com grande eficiência.
Além das referências temáticas e estéticas ao seu próprio cinema e ao cinema japonês em geral, Zatoichi encerra na sua própria construção um enorme louvor em relação a uma idéia de memória. Praticamente todos os personagens do filme, à exceção do protagonista, têm suas situações atuais explicadas através de flashbacks que percorrem todo o filme. A vingança dos irmãos ou a ruína do guarda-costas são efeitos diretos de seus passados desvelados a certa altura do filme. Mais que um recurso narrativo fácil, tal dispositivo nos lembra que hoje vivemos um reflexo daquilo pelo que passamos. O passado como motivação do presente, que é um dos lados da idéia que o filme tenta defender.
O outro lado é simbolizado pela figura de Zatoichi, personagem-título. Um homem 'sem passado', pelo menos pelo que é mostrado no filme, ele é o elemento transformador da situação vivida pelos outros personagens da trama. De certa forma, é como se o samurai cego não fosse exatamente um personagem, mas uma força transformadora da trama. É ele que vai dar resolução aos dramas individuais dos personagens, sempre através do seu talento na violência: uma entidade do presente que se combina com aquelas vindas desde o passado e que, através dele, terão continuidade ou não. Nesse aspecto certos personagens funcionam um melhor que outros (por exemplo, a mulher do guarda-costas, que, de certa maneira constitui um único personagem combinado com ele, o que se justifica pelo seu suicídio antes mesmo de tomar conhecimento da morte do marido), mas o fato é que todos atravessam Zatoichi como forma de transformação. Nada mais justo que Kitano, como criador, seja o ator a encarnar tal força.
Além disso, chega a ser interessante que a única cena de flash-back do personagem seja, ao mesmo tempo, totalmente não-narrativa e a mais evidente aproximação do filme com um dos universos não-cinematográficos que ele toca: os videogames. Em uma de suas mais belas cenas, Kitano filma a si mesmo enfrentando um batalhão de inimigos, sozinho na chuva. A sequência é cheia de efeitos de computador, que aparecem em quase todas as cenas de luta do filme, especialmente para gerar sangue e a amputação de membros de seus adversários. Chega a ser irônico que tais efeitos atravessem o filme inteiro mas nunca cheguem a alterar a ação em si, mas sim complementar as lutas que de fato são filmadas de forma bastante 'clássica' (aqui podria se apontar uma aproximação com os mangás, quadrinhos japoneses onde as histórias de samurais também são muito populares). Os efeitos estão ali, claramente para quem quiser ver, mas não dominam o filme: são usados de forma sutil e complementam a tradição.
Outro aspecto em que há a quebra do tradicionalismo no filme é a música. Surpreendentemente, Kitano abandona em Zatoichi um de seus parceiros mais constantes, o compositor ultra-melódico Jo Hisaishi. O estilo aqui não chega a ser totalmente diferente das trilhas de seus filmes anteriores, mas certamente traz diversos novos elementos. A inclusão, por exemplo, de percussão eletrônica em um filme de samurais, ao lado de peças de música tradicional japonesa e outras típicas de trilhas sonoras de filmes ocidentais, pode parecer estranha à primeira vista, mas faz total sentido frente ao filme como um todo. Há momentos em que tais elementos são conjugados de forma tão sutil que a mistura se torna perfeitamente natural.
A música também parece associada a um elemento totalmente anacrônico com o tempo histórico em que se passa o filme, mas que rendem algumas das suas melhores passagens: as danças modernas e performáticas de grupos a la Stomp. Desde os primeiros minutos do filme, em que uma música percussiva é tocada, ele propõe uma mistura de sons diegéticos que a constróem, feitos por fazendeiros de arroz trabalhando no campo. Tal recurso é usado brilhantemente ao longo do filme e, em alguns casos, os sons diegéticos são progressivamente combinados com outros externos à realidade do filme (inclusive sons eletrônicos), numa mistura de trilha sonora 'pura' e performance teatral de atores/músicos, trabalhada de forma a unificar, mais uma vez, os elementos clássicos e contemporâneos.
Claro que nada disso funcionaria se Kitano não tivesse a capacidade de levar o projeto de forma firme e o fato é que ele filma aqui com uma vontade absurda, instigado e apaixonado pelo seu filme. Ao tratar o presente e o passado de forma intensa mas nunca maniqueísta, o diretor consegue a chave para dar vida a essa idéia de que o equilíbrio não passa por favorecer um ou outro, mas abraçar os dois com igual vontade. Uma sequência em especial retrata isso de forma magistral: a dança do irmão enquanto a irmã toca a música, alternando momentos análogos no passado e presente, uma sequência hipnótica e antológica em que não se transforma o passado de tristeza em melodrama e nem o desejo de vingança presente em ódio vazio, mas se unifica os dois em um momento de pura beleza cinematográfica.
Terminar o filme com uma filmagem extremamente empolgante de uma dança performática (chega a lembrar a maravilhosa abertura de Dolls, com a filmagem de uma peça de Bunraku), com todos os personagens vestidos em roupas 'de época' e combinando música tradicional, eletrônica e vozes de dentro e fora do filme, alternando os irmãos dançando em suas encarnações infantis e adultas (através do uso de efeitos de computador) e, além de tudo, apresentando o 'elenco' do filme como no final de uma peça de teatro, não é piada ou truque: é um manifesto, pela unificação de todas as manifestações de arte, clássicas e contemporâneas, como verdadeiro caminho para a criação de de algo vital. Com Zatoichi, Kitano conseguiu exatamente isso. Mais uma obra-prima.

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