Balzac e a costureirinha chinesa (Dai Sijie, 2002)
Existem determinadas ‘doenças’ características dos filmes pertencentes ao chamado circuito ‘de arte’. Uma delas é o uso recorrente de elementos exóticos na construção da base do filme, falsamente conferindo ao mesmo um ar de ‘novidade’. Outra que pode facilmente ser apontada é uma total discordância entre forma e conteúdo, que se dá na proposta de uma ‘mensagem’ supostamente libertária ao passo que tudo o que se faz efetivamente na forma é abraçar as mais óbvias restrições formais. ‘Balzac e a costureirinha chinesa’ é um filme que padece dessas, entre outras, enfermidades clássicas desse dito cinema ‘de arte’.
No quesito ‘forma e conteúdo em total falta de sincronia’, o filme merece prêmios. A vontade do filme de mostrar, de forma irônica, como o governo ‘revolucionário’ chinês era tão reacionário quanto qualquer ditadura de direita é latente desde as primeiras cenas: a ‘graça’ é revelar como a sociedade capitalista é tão revolucionária quanto a do modelo socialista; o objetivo é provar que as diferenças e ambigüidades dos dois modelos só existem dado um referencial de olhar. Ao narrar a história de dois filhos de burgueses que são reeducados no interior da China, durante o regime de Mao Tsé Tung, e sua relação com os camponeses pobres, responsáveis pela sua nova educação, o diretor Sijie Dai consegue tudo, menos atingir esses objetivos.
E não consegue pela sua opção de cinema: de uma letargia enorme e aprisionado em todos os modelos tradicionais do filme ‘de arte’, ‘de festival’. A começar pela aproximação feita entre drama e comédia, feita de forma a desvalorizar todo o sofrimento humano que certamente houve na época. Nesse ponto, é possível traçar uma analogia entre esse filme e o intragável ‘A vida é bela’ (Roberto Benigni, 1997), pela sua reconstrução de uma memória de fantasia infantil, com o agravante que os donos dessa memória em ‘Balzac’ não são crianças. Eu não sei se o processo de reeducação no interior da China era tão barra-pesada quanto um campo de concentração nazista, mas duvido que carregar um enorme cesto repleto de fezes humanas enquanto estas escorrem sobre você seja uma memória agradável, como o filme parece querer mostrar.
A aproximação dos personagens centrais com a costureirinha do título só faz aumentar a sensação de que esse período de reeducação não foi mais que uma aventura de três anos vivida pelos três jovens. A ‘aventura’ consiste em driblar as autoridades e ter acesso a livros ocidentais proibidos pelo regime comunista. O que poderia ser potencializado como uma ode ao poder libertador da arte e do período de adolescência acaba sendo jogado fora através de um uso pobre e mesquinho do material em mãos (os livros). O fato de que os jovens, quando mais velhos, se tornam bem-sucedidos membros da sociedade capitalista (um deles fora da China) só denota que o poder libertador desse material artístico nada mais é que o aprisionamento em um novo modelo.
Ainda assim, o erro mais grave do filme não é outro senão a falta de paixão com que o relato transcorre na tela. Não há humanidade nos personagens de ‘Balzac’ e, em especial, não há visceralidade nas suas ações. Tudo parece seguir a cartilha das histórias de jovens-oprimidos-pelas-autoridades. E se a história em si tem essa mecânica, as soluções de filmagem realçam isso com a maior eficiência. Dessa forma, tanto elementos dramáticos do filme (por exemplo, o amor platônico de um dos jovens pela costureirinha) quanto os cômicos (a extração do dente do chefe da vila) perdem completamente qualquer impacto. São burocráticos vazios de cinema.
E, claro, sobram aí os pontos de interesse de grande parte do público desse circuito viciado ‘de arte’, as doenças. A doença do material exótico, por exemplo. Chega a ser curioso que o filme tenha um caráter auto-biográfico, já que o diretor Sijie Daí, chinês vivendo na França (como um de seus personagens, o violinista que, quando adulto, vive no mesmo país), não consegue lançar sequer um olhar mais íntimo sobre o espaço que filma. Seu interior da China é um cartão-postal e ver o filme tem o efeito de folhear um livro de fotos turísticas, nunca de se colocar um pé lá. Se bem que esse distanciamento entre o ‘violinista-diretor’ ocidentalizado e tudo o que filma está ali, claro para quem quiser ver, principalmente em dois momentos: o encontro entre o jovem e um camponês músico, em que nem ele nem o filme conseguem ver na sua canção-charada mais que uma curiosidade, uma piada; e na sua volta, já adulto, para o tal vilarejo, quando os dois, ele e o lugar, são tão estranhos um para o outro quanto eram quando passara três anos ali vivendo.
Não chega a surpreender que o filme seja baseado em um best-seller (escrito pelo próprio diretor do filme), já que ‘Balzac’ é um filme atado, totalmente submisso a fórmulas. Fala de ‘revolução’, mas nada mais é que a antítese do seu tema. Um filme domesticado, europeu-disfarçado-de-oriental. Mais que tudo, um filme sem paixão.

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